13 abril 2026

A saber a sal...

Sentados na carruagem, a moça do casalito, por desfastio, talvez, vai dando a comer batatas fritas de pacote ao seu namorado: uma, duas, três. Pouco depois, por curiosidade, experimentação ou malícia (quem sabe...?) decide elevar a parada um bocadito, trincando na sua boca parte de uma batata e convidando o namorado a fazer o mesmo no outro lado, incentivando-o a fazer o trajecto que separa as duas bocas, de forma a terminar num beijo. Como nos filmes... 




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06 fevereiro 2025

À la carte

_ Que problemas tem...?

_ Na arca ou prontos a sair...?

_ A sair. Espero que sejam de hoje...?

_ Fresquíssimos! Quer escolher...? Está aqui a carta. Faça favor.

_ Os rombos são de escabeche?

_ Não. Panados.

_ E os agudos, com piri-piri ou gengibre...? Se tiverem, tire! Fazem-me azia...

 


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21 julho 2024

Engasgad(i)o

A salada de alface tinha um aspecto e um aroma apelativos, com a cebola, o azeite e o vinagre. Na aparência, simples, complexa, no paladar, duas características de mão para a cozinha... Levantados os olhos do pitéu no prato, um olhar sobre umas imagens na televisão, personificadas por um candidato a messias de pacotilha, e a reacção de engasganço foi imediata... Por culpa do vinagre...


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30 maio 2021

Estrugido

Utilizara um bold, mas poderia ter usado um itálico ou um sublinhado para o alerta. Pensando melhor, talvez a opção itálico não fosse a mais apropriada, dada a situação. Mas o bold sim, tal como o sublinhado, pois adequavam-se perfeitamente à queimadela do almoço.

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26 setembro 2020

Rivalidade em azeite e vinagre

Começava a ficar farto de ser pau para toda a colher... Como nesse dia, em que o chefe lhe dissera para avaliar a profundidade e o significado oculto de duas listas de compras, feitas no mesmo dia pelo chefe rival... Pensara não o fazer e mandar tudo para aquela parte, mas a cozinheira velha dissera-lhe para não o «fazerrrrr», pois isso «poderrrrria» ser visto como «embarrrraçoso» e, bem feitas as contas, precisava do emprego... Que se lixasse!

Olhando para o conteúdo das listas, a análise não parecia difícil. Numa, listavam-se os legumes: couves, brócolos, alhos franceses, agriões. Noutra, as leguminosas: feijões, grão, lentilhas. Em nenhuma delas, qualquer referência a carnes ou bebida. Mas era precisamente isso que intrigava o chefe que lhe encomendara a tarefa semântica... «O que é que o rival estaria a tramar, desta vez...?», dissera-lhe ele, limpando as mãos ao avental, depois de ter acabado de fazer uma maionese. Para mim, parecia óbvio: o que o outro chefe estava a pensar, seria uma de duas coisas - ou uma sopa ou uma salada fria. Para o meu chefe, porém, a explicação era simples de mais, convindo não esquecer que o rival tinha duas estrelas Michellin e ele só tinha uma e meia... Que não descurasse a guarda e as intenções do rival (que eram manhosas e ardilosas, segundo ele) e que depois falaríamos outra vez, mais perto do jantar... Mas que agora convinha dar saída ao pedido da mesa sete, dose e meia de cozido, com umas entradinhas de semântica picada, salteadas em azeite, para dar sabor...

 


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25 julho 2020

Buffet frio

Não havia muita coisa que ver: alguns melões, meia dúzia de melancias, batatas, cebolas, alhos e alguns tomates. Para banca, era fraca. Ao lado, ainda era pior: textos manhosos, livros sem jeito, manuscritos descosidos. Dentro da vasilha, algumas expressões: idiomáticas, umas, chulas, outras, mas também de origem. Pediu que lhe tirassem uma malga delas, a ver no que dava. Pagou e foi para casa. Passou-as por água e puxou por uma: «Tanto se lhes dá como se lhes deu». Estava um bocadinho mortiça, talvez da salmoura, ou por ser de sua natureza. Mas, agora, já não havia volta a dar: tinha que lhe pegar e fazer qualquer coisa com ela. Era esse o acordo... Olhou para o relógio. Tinha um tempinho, ainda. Poderia fazer uma marinada, a ver se apanhava um saborzito, esperando não ficar muito envergonhado quando a servisse... À cautela, comprara um frango.




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13 novembro 2016

Fusões

Era um espaço de fusão. De sabores e de cultura. A adaptação fazia-se ao ritmo de cada um, como naquela mesa, em que se tentava comer com os pauzinhos um sushi, feito com o talento e o cuidado de uma arte. A boa vontade imperava, e o esforço era genuíno. Mas a larica também. A medo, sem levantar a voz, acaba por se desistir e pedir uma colher. Não haveria problema, disseram-lhe. E a colher apareceu, como que por milagre, envolta num sorriso, acompanhada de uma sugestão para algo em conformidade com o utensílio: não seria melhor uma feijoada, vegan ou tradicional?

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24 janeiro 2015

Afinal...

A mãe tinha razão quando dizia que o coentro não era conhecido para aquelas bandas, pelo menos até há relativamente pouco tempo. Características climatéricas das zonas, feitios ou costumes das populações, desconhecimento da existência ou falta de interesse pelo mais ligeiramente longe, o que fosse, estudo recente provava que a mãe era capaz de ter razão... Às vezes, o engolir em seco do orgulho e da presunção tem este travo: ligeiramente amargo, mas picante.

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10 janeiro 2015

Imeeeeensa paprikaaaa!

Os tachos e as panelas levantaram o testo em sinal de respeito e a Paprika, inconsolável, não conseguiu conter as lágrimas. À volta da mesa, os livros alinharam-se para um minuto de silêncio. Para o jantar, os chefs resolveram preparar um Resdom, perguntando à Paprika se não quereria associar-se, dada a profunda ligação que sempre mantivera com a senhora, pedido a que acedeu, enxugando as lágrimas no pano de cozinha mais à mão. Um sucesso, tal como se esperava. Serve-se quente.

(pequena homenagem a Filipa Vacondeus).

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22 novembro 2014

Aforismo

Se te disserem que há receitas, desconfia. Acredita, se forem da tua avó.

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23 junho 2013

À la carte

O menu de degustação começou com umas ovas recheadas de folha A5, condimentadas com um finíssimo fio de azeite virgem. De seguida, escalopes de folha A4 com béchamel e ervas aromáticas. Para finalizar, picanha de folha A2, cortada em fatias fininhas, marinadas em molho roquefort.

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24 novembro 2012

Momento zen(e) 15

Nos peixes, as espinhas costumam ser um embaraço para os gastrónomos ou têm como destinatários os gatos ou o caixote do lixo. Na sequência da investigação de cientistas portugueses, leio-o no site do Público http://publico.pt/ciencia/noticia/das-espinhas-de-bacalhau-cientistas-portugueses-querem-fazer-proteses-1574717, este estado de coisas é natural que se altere e os habituais destinos das espinhas passarão a ser outros e mais interessantes. A partir de agora, aquando de uma bacalhoada, é conveniente respeitarmos reverentemente as respectivas espinhas, pois não saberemos se não estaremos a roer ou a desperdiçar a nossa futura dentadura ou prótese da anca...

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01 novembro 2012

Viva o pão!

Alguém que saberá como se faz colocou-o em zona de passagem onde dificilmente deixa de se notar, sobretudo pelos apreciadores. Num expositor de madeira pintada de branco, com divisões na parte superior em acrílico, dispõem-se à vista e à gula: grandes, redondos e tostados, com frutos ou sem frutos, de milho, trigo e centeio. Pães, pois claro!

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26 julho 2012

Momento zen(e) 13

Também é essa a função de um título: chamar a atenção. E esse não fugiu à regra. Junto com o título, o casaco do apresentador de televisão, com uma espampanante rosa, cumpriu a sua função para o alerta da visão. Mas o melhor seguiu-se depois, com uma interessante elucidação gastronómica à volta de presuntos, em concreto sobre as designações de alguns dos mais celebrados e caros, que também são referenciados como 'vintage' ou 'grande reserva', tal e qual como se verifica no mundo dos vinhos. Há que reconhecer que estamos num outro patamar. Pelos vistos, e para quem pode, pedidos como: «Não sei se me apetece uma fatia (de presunto) vintage ou uma de grande reserva» serão comuns. Para quem não puder ou não conhecer estas categorias, que remédio terá se não assumir este: «Fininho, com pouca gordura». Se faz favor.

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13 novembro 2011

Castanhas

Quero acreditar que a chegada das castanhas corresponde a um período de fartura, ainda que breve. Nas pessoas nota-se alguma descompressão e a disposição altera-se, pelo menos enquanto as degustam. Algo nas castanhas (assadas ou cozidas, mais ou menos carnudas) tem um poder viciante, todas excelentes para quem gosta, pequenos ou graúdos, novos ou velhos, mas genuinamente satisfeitas com o resultado.
Tempos houve em que terão sido prato de salvação e remedeio. Hoje, pode dizer-se, são encaradas quase como um menu gourmet e pagam-se como tal... Que se lixe, valem pelo que sabem!

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08 dezembro 2010

Comida de entulho

Carinhosamente, costumo chamar-lhe «comidas de entulho»: feijoadas, cozidos, ranchos ou afins. Em dias em que sabe bem estar em casa, então, nada melhor do que uma «comida de entulho» para aquecer o estômago, saciar o apetite e animar a alma. Se é certo que uma refeição farta e apetitosa convida ao encontro e ao convívio, fazê-lo com uma «comida de entulho» é aprimorar esses pergaminhos. «Entulhemos», pois!

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16 setembro 2009

Final de tarde

Saborear, ao final da tarde, um queijo tradicional, bom pão e um bom vinho é um dos pequenos grandes luxos e um hino à vida. Numa altura em que o tempo começa a arrefecer e se agradece o aconchego da casa, eis aqui uma opção só para apreciadores.

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02 agosto 2009

Falta de sal

Estava a dar moral a mim próprio, a ver se conseguia escrevinhar algo sobre o meu actual entusiasmo pelas habilidades gastronómicas. Foi escusado. Faltaram-me a mão e o talento. Ou, dito de outra forma: falta de sal...

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05 dezembro 2008

Migas de alho

As crises, dizem os entendidos, também representam uma oportunidade: para mudar, adaptar, recuperar ou inovar. E isto também se aplica à gastronomia. Acabei de o comprovar.
A receita é muito simples. Por exemplo, esta: pão duro, água fervida, azeite, alhos, sal, salsa, um ovo escalfado - eis as «migas de alho»! Sim, por que é de «alho» que se trata - cru e muito. Outros chamar-lhe-ão açorda ou qualquer coisa parecida, para mim serão sempre «migas de alho», um pequeno tributo à infância e à família. Como disse, cru e muito. Como remate, acrescentem-se uns pedaços de queixo curado e acompanhe e brinde com um tinto, sem olhar a regiões demarcadas.
Ficou de «lamber os beiços», expressão que me parece bastante própria e a condizer com o petisco.
Feitas as contas, abençoada crise!

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30 setembro 2008

Combinação perfeita

Talvez a receita resulte da simplicidade: vinho, queijo e uvas. Trata-se de mais um sabor e de uma combinação perfeitos.

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