10 outubro 2025

Concertices...

Longe iam os tempos de decorar a tabuada, mas o processo e o método cantarolístico tinham funcionado. Era um facto! Talvez por isso, iniciando-se ou tentando iniciar-se no mundo da música, achou que poderia voltar a adoptá-lo. Começou pela versão simples do cantarolar a escala/pauta das notas: dó-ré-mi-fá-sol-lá-si-dó, na via ascendente e na descendente. Agora, o desafio era mais exigente: fazer a correspondência entre o nome das notas e o da cifra: C - Dó, D - Ré, E - Mi, F - Fá, G - Sol, Lá - A, B - Si. Experimentou, experimentou e a coisa não funcionava... Torceu o nariz, não por qualquer incómodo olfactivo, mas por desconforto gnoseológico (bonito, hem...?!) e proclamou: «Assobio, volta! Estás perdoado!...».

 

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05 outubro 2025

Desta vez, o mordomo safou-se...

O aparelho de refrigeração, uma torre, tornara-se peça indispensável para o conforto da casa. Mas também o responsável pelas desavenças do casal no que ao conforto térmico dizia respeito. As divergências resumiam-se ao alcance das partes refrigeradas: as pernas, no caso da mulher, a cabeça, no caso do homem. Como solução, a apresentada pelo mordomo: uma cadeira! 

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17 setembro 2025

Ensai(inho)

Desiludido com as narrativas, tentou o ensaio. Mas a dúvida colocou-se-lhe: sonoro ou reflexivo...? Na dúvida, auscultaria os vizinhos. Mas teve de andar para os ouvir, pois moravam longe... Para quem não soubesse, fora o preço a pagar pela experiência anterior.... Seria reflexivo. 


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24 julho 2025

Mach 1 (pelo menos...)

Sempre o fascinara aquele gesto, visto e revisto em vários filmes, do piloto de caça, no cockpit do avião, baixar a viseira do capacete, conferindo-lhe um ar extra-terrestre e futurista, disparado em direcção ao céu infinito...

«Porque não...?», pensou, fazendo descer da cabeça para os olhos, com um movimento da mão, os seus óculos de sol antigos, mais foscos do que desejável, mas com aquela patine, afivelando o capacete, tipo penico, montando a sua velha Famel, relíquia familiar, e apontando à estrada... Zuuuuum!....


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31 janeiro 2025

Em privado...

De inesperada, a situação não deixava de provocar reacções contraditórias: riso, para uns; incredulidade, para outros. 

Impávido e sereno, o protagonista continuava a sua rotina, para não dizer labuta: na mesa com duas cadeiras, alternadamente sentava-se ora numa ora noutra, a murmurar.

Desconfiado, para não dizer enfadado, o empregado de mesa perguntou:

_ Deseja pedir alguma coisa...?

Imperturbável, o homem respondeu:

_ Só para mim. O solilóquio está pela companhia...

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12 dezembro 2024

Em mão

O agente secreto não estava visível. Se estivesse, era mau. Como não estava, era bom. Para o que interessava neste caso, contudo, o ser bom (não estar visível) não era o mais aconselhável, mas o ser mau (estar visível), concluía o cidadão, com uma encomenda na mão, mandada pela mãe do agente secreto, que lhe recomendara, com a candura de mãe, que era para o filhote, que lha entregasse em mão, «a única!», enfatizou a progenitora. Mas como!?..., que não havia maneira se lhe ver a cara, a mão, o pé ou qualquer parte do corpo!... Aguardaria mais um pouco. Já estava escuro, quando o agente secreto deu sinal de si, plantando-se em frente ao mensageiro, trocarem palavras de passe e estendendo a mão, só então o transportante da encomenda teve uma espécie de epifania, e apreendeu, verdadeiramente, o que a mãe tinha querido dizer, com a especificação sobre a mão do seu filho: o agente secreto era maneta!


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28 setembro 2024

Freestyle...

Previdente, a velhota à janela avisou-o de que não seria necessário levar guarda-chuva pois não choveria... Por acaso acabou por chover e ele teve que nadar uns bons metros, devido às cheias... Um cronometrista de piscina, que passava num bote, cronometrou-o com mínimos olímpicos...

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31 julho 2024

Tiro e cálice

O duelo estava marcado para as três da tarde. Desconheciam-se as armas, mas os padrinhos já lá estavam, aproveitando o tempo para beber um cálice. Batidas as três, nada de duelistas... Firmes, os padrinhos permaneciam à espera, continuando a ingerir cálices, justificando-se como remédio para o nervoso... Chegados às oito, o duelo foi cancelado e chamado o transporte para os padrinhos, agora mais inclinados do que no início...

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15 março 2024

No quintal...

O gato escalou o telhado de forma furtiva. Concentrado na presa, supõe-se, quedou-se, expectante... Ouve-se o ruído de abertura de um estore, com um som chiado e irritante... Uma cabeça emerge da janela... O gato mantém-se impassível... De súbito, o pedaço de fiambre é disparado da janela, qual míssil! e o gato salta, aparentemente da surpresa... Ouve-se um esvoaçar de asas... No conforto do ramo da árvore, por cima do caçador de quatro patas, o pardal suspira e evacua, aliviando a pressão...

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18 janeiro 2022

Pfhhh...

O assobio saiu-lhe sem força e sem ritmo. Por momentos, apenas um soprozito... Ainda não seria desta que a sinfonia se concluiria...

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12 janeiro 2022

Ó(b)vio

_ Se lhe ceder o palco, o que é que faz?...

_ Alugo-o!

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03 julho 2021

Sobreposição

O pistoleiro olhou para a agenda e constatou o óbvio: alguém, com responsabilidades (a secretária), sobrepusera os horários dos duelos para esse dia, marcando dois para a mesma hora e sem possibilidade de remarcação, pois os preparativos tinham sido desencadeados há muito tempo, como a delimitação do terreno e a convocação do cangalheiro, sem contar com a despesa, já avançada, na contratação da claque. Para complicar o cenário, tinha dentista a seguir, para uma destartarização, e aqui é que não podia mesmo faltar, avisara o dentista, que ia entrar de férias!... Pouco havendo a fazer, dado o timing, pegou no telefone e falou com o avô, já reformado mas ainda a ver bem, e perguntou-lhe se tinha alguma coisa marcada para a hora X. O avô, emocionado e contente por falar com o neto, a quem já não via há algum tempo, disse que sim, que não tinha nada marcado para a hora X, pois a partida de dominó tinha sido adiada para as seis da tarde, que estava mais fresco e a pinga estava geladinha (era vinho verde), que sim, podia ser. O neto agradeceu e recomendou ao avô que, no duelo, não se deixasse impressionar com a pinta do opositor, disparando sempre em frente, até esvaziar o carregador. E que, se não se importasse, não se esquecesse de levar consigo o testamento, não fosse o diabo tecê-las...

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24 fevereiro 2021

Ascendimento

Ensacou uma data de títulos e preparou-se para os transportar para a lixeira. Pesavam pouco e isso era uma boa notícia. Mesmo assim, não estava convencido da sensatez da decisão de os ensacar e atirar para o lixo. Não tinha sido reflectida, talvez. Ou não esperara o suficiente, tentando que ficassem maduros e providenciassem os dividendos necessários. Fosse como fosse, agora havia pouco a fazer. Por um buraco da saca, porém, um deles começou a mostrar-se e a acabou por cair no chão. Apanhou-o e leu-o: Livra-me e segue andando, já com o itálico. Como quem se lembra de algo e se compraz, deu-lhe umas dobras e transformou-o num avião, pequeno, mas aerodinâmico, lançando-o de seguida. Perdeu-se nas nuvens e deixou de ser visto...

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19 setembro 2020

À pala da semântica

Foi-se a ele e partiu-lhe o focinho. Dito assim, sem mais, a acusação não deixava dúvidas. Mas as coisas não são como parecem, às vezes. Havia que explorar os pormenores e tentar conhecer o contexto... Até então, davam-se bem. O que teria acontecido...? Uma desavença, pequena ou grande, não interessa. Para o que conta, os factos eram a agressão e a partidela do focinho. Haveria atenuantes...? Talvez... talvez... e aqui planta-se uma dúvida, uma suspeição de que os factos, as coisas, o que aconteceu pode não ter sido bem assim, que há nuances, partes ou pormenores da história que se desconhecem ou se conhecem imperfeitamente... Nada que nos surpreenda, note-se, mas que é conveniente ter sempre presente, à laia de um alerta. E o alerta tinha-se manifestado, o malandro!, da vez em que a pata do cavalo, vá-se lá a saber porquê?..., se esticou e fez uma rasante, uma tangente às fuças do parente, situado na prateleira de cima. Que se assustou e alertou para isso, pedindo atenção e contenção no esticar das patas. Que houvesse cuidado, da próxima, senão... Mas o senão não fora suficiente, constatava-se agora, que o mal estava feito. E já irremediável... Concluíram mais tarde os peritos no relatório, onde se afirmava, preto no branco: «a patada foi desferida, seca, mas precisa, no focinho em barro do cavalo comprado na feira, pelo cavalo de porcelana comprado em antiquário de renome, suspeita-se que por despeito, estilhaçando-o em pedaços».

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06 setembro 2020

A história secreta de um lançamento

A culpa tem de ser imputada a uma epifania, pequena que fosse, mas claramente identificada. Tudo começara em dois mil e troca o passo, com a criação de um blog, esse instrumento ilusório e circunstancial de contacto e projecção de fama e do nome, mas tudo em regime discreto e pausado, ao correr dos dias, das noites ou das estações do ano.

Dos contactos e da fama, rapidamente se desiludiu. Tentaria outra via. E foi o que fez. E tê-lo-á feito bem, a crer na epifania, que lhe garantiu que esse era o caminho. Ainda procurou fugir, mas não deu. «Era o karma», sussurrava-lhe a epifania, enquanto lhe ia esvaziando a garrafeira. Que esvaziou depressa, diga-se, e saiu porta fora, até hoje, com o pretexto da compra de cigarros... Compreende-se a demora, pois os cigarros que fumava, o Kentuchy, um must em determinada época e cigarro de culto, já era difícil encontrá-los. Pior do que isso, só a procura do Graal.

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14 agosto 2020

Tem de ser, Senupe

Abriu o armário das surpresas e espreitou lá para dentro: o cheiro a mofo, ligeiro, aconselhava a fechar a porta com delicadeza.

Tentaria o moleskine (artesanal, nada de confusões, com folhas do mais genuíno papel de fotocópia, da edição de 1973, coloração ligeiramente amarelada), porto seguro de inspirações (e algumas expirações, também), algumas epifanias e profusas listas de compras para supermercado, detalhadas por tipo de produto, peso, e conteúdo nutricional. Mas debalde, também: «Encerrado para férias. Por favor, não incomode».

Que fazer...? 

Fixando-se no 'debalde', algo lhe espicaçava a curiosidade. Um som...?, Uma referência...?, Uma memória...?

Olhou para Senupe e não gostou do que viu... Iria buscar o balde. À falta de melhor, daria banho ao cão.



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24 julho 2020

Voo picado

Pegou no texto e sopesou-o: estava no ponto. Dobrou as pontas e vincou-as com a unha. Deu-lhe um toque aerodinâmico. Semicerrou a janela, filtrando a entrada de ar. Levantou o braço pouco acima da cabeça e lançou o texto, em formato de avião de papel, e ficou a observá-lo, planando com os parágrafos à mostra. Aterrou no caixote do lixo sem um 'ai' nem um 'ui'. Não houve sobreviventes.

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04 julho 2020

Entesourado

Não fora por falta de avisos. Sobretudo da madrasta, que o alertara para o perigo em devido tempo. Mas a que não dera ouvidos (um clássico), escolhendo para companheira uma preocupação muito jeitosa, sim senhor, mas um bocadinho passada dos carretos (no melhor pano cai a nódoa). Não que a relação tivesse corrido mal (longe disso), testemunhada pelo nascimento e medramento de meia dúzia de ficções, presenças habituais nos escaparates e com uma ou outra passagem pelos tops. Desentendimentos, a bem dizer, houve poucos. O maior foi com a escolha da forma, que a preocupação achava mal, por excessivamente longa, e o escriba achava bem, pois era dado ao romantismo. Consultados os astros (outro clássico), decidiu-se que o melhor era pegar numa tesoura e começar a cortar onde fosse desejável. No final, o resultado foi uma palavra: fim.

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07 junho 2020

Na arca da avó

Decidira inovar. Again. A utilização da palavra inglesa entusiasmara-o. Em matéria de inovação não era muito criativo, mas dava um toque cosmopolita... Aqui pensou em meter outra, mas refreou-se. O que calharia melhor agora, pensou, era recorrer a um arcaísmo... Com isto, imbuía-se de uma perspectiva culta (para currículo, não havia melhor!..). Olhou em volta, à procura de um. Não estava a encontrar nenhum. Talvez na arca da avó, quem sabe...? Aproximou-se da arca e levantou a tampa. Espreitou para dentro e perguntou: «Há aí algum arcaísmo que queira ver a luz do dia?...». Silêncio. Espreitou melhor. Lá no fundo, alguma coisa começava a mexer-se... À cautela, muniu-se de um pau. Começou a ouvir-se uma tosse. Seca, a princípio, depois mais descontrolada, como se um qualquer pulmão quisesse fugir... Pôs a máscara. O que lhe aparecia à frente era uma coisa estranha, mas tinha uma certeza: não era a avó! Aproximou-se mais um bocadinho. Pela pinta, parecia-lhe um marmanjo... Inquiriu-o. A história era conhecida, mas estava bem contada: nascido de boas famílias, caíra na desgraça. Mas arrependia-se. The end.

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30 maio 2020

Vida de mini-conto

De repente, viu-se emparedado entre o acrílico que separava o romance e o que separava a novela (mais delgado, é certo, mas ainda assim ocupando espaço). Tentou mexer um pouco as suas letras e ganhar algum conforto, sufocado que se sentia. Antes que fosse tarde, decidiu enviar um alerta a um conhecido bibliófago, que ajudaria pro bono

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