28 março 2025

Boletim do tempo

Fechou o olho e fez pontaria com a BIC (laranja ou cristal, fica para quem se lembra...). Como vira nos filmes de snipers, apanhou um bocadinho de relva e atirou-a para o ar, à espera da indicação do vento... Ficou na dúvida se haveria chuva, neve, ou granizo... Ainda pensou telefonar para a meteorologia, mas já estava atrasado... Olhou para a BIC e compadeceu-se... «Hoje, tens folga».

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23 março 2022

Proclamação!

Um amigo, desde o tempo dos calções, morreu.

A frase inicial é absurda: os termos e o que significam são contraditórios, não se admitem coligados. Nem pensados! 

Onde é que já se viu os conceitos ‘amigo’, ‘do tempo dos calções’ e ‘morreu’ a fazerem sentido…!? Claro que não fazem.

Por isso, a correcção impõe-se. Façamo-la: 

_ Um amigo, desde o tempo dos calções, não morre!

                                                                                            (In memoriam CR)

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06 junho 2021

Caçarreta

Olhando para trás, a atribuição do prémio fora justa e merecida. Não deixava de ser irónico que a consagração fosse contrária a todas as normas e preceitos da pontaria, habitual e desejavelmente para a frente, e tornasse lendário quem não era capaz de o fazer, mesmo que com boas armas e conselhos avisados, mas um caso perdido no que a essa competência dizia respeito... Talvez por isso, a única hipótese foi a de se ter que recorrer a um estratagema clássico, complementado por uma genuína amizade e ao coração mole e gozão de companheiros de jornada, colocando a peça, já morta, no local em que ainda seria suposto dar pinotes ou ziguezagues pelo mato fora... Para a cereja em cima do bolo, o comentário do caçarreta, um clássico: «Nem se mexeu!». Pudera!...

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18 agosto 2019

A escrita da vida

Duas personagens lendárias encontram-se ao jantar e bebem uns copos em nome dos velhos tempos. Muita emoção, muita história, muito qualquer coisa. Ao despedirem-se, diz um para o outro: «Naquele tempo, a própria vida escrevia-nos».

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30 setembro 2017

Bugalha

Era um jogo renhido, disputado palmo a palmo. Os ruídos eram poucos, às vezes um traque pela posição. Um erro, uma distracção e «era a morte do artista», representada pela caída no buraco do meio, «no cheiretas», punição temida por aquelas miniaturas de gladiadores a digladiarem-se na arena da bugalha.

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25 abril 2015

O sniper


Era tudo muito simples: havia bons e havia maus. Aos bons chamávamos «artistas» e aos maus chamávamos «maus».
A convivência entre os bons e os maus não era pacífica, muitas vezes era mesmo assassina, mas com a particularidade de se poder ressuscitar quando as mães, avós ou tias chamavam para lanchar. E se houvesse um depois do lanche ou se fosse no dia a seguir, a troca entre bons e maus também se podia fazer, desde que se quisesse muito ou se fosse obrigado a isso.
Nesses duelos as armas eram letais, mas a brincar. Não se pactuava, no entanto, com falcatruas do género «Não morri, porque só me acertaste no pé», situação grave e altamente atentatória da qualidade da pontaria de quem atirara, bom ou mau, não interessava. Nessas situações, a guerra ou o duelo eram interrompidos para esclarecer se estava morto ou apenas ferido, não havendo aqui preocupações com o facto de ser com mais ou menos gravidade. Esclarecido o imbróglio, o duelo ou a guerra continuavam, até ao extermínio da maioria ou se acabarem as munições, o que raramente acontecia, porque costumavam ser inesgotáveis.
Nestes cenários de mortandade fictícia todos tinham as suas armas de eleição: paus, bengalas, guarda-chuvas, pedras com formato de pistola, espadas, pistolas e espingardas de brincar, fisgas ou zagaias artesanais.
No seu caso, a arma preferida era uma bengala, que reunia todas as características de uma espingarda de precisão, destinada para o combate à distância, e que até tinha na ponta uma borracha que se parecia mesmo com um silenciador, servindo para matar maus ou bandidos sem barulho. E muitos se terão matado então, se bem que as telhas e as esquinas também tivessem sofrido o seu quinhão, pois se tratava de um cenário de guerra ou guerrilha urbana, quando descobriu que tinha sido sniper, mesmo sem o saber, nos seus primeiros anos de vida de brincadeira.

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07 fevereiro 2015

A tasca

Não era uma tasca muito grande. Na verdade, até era mais para o pequeno, o que levava alguns a chamar-lhe «tasquinha». Isso incomodava (um bocadinho, só) o dono, pois achava que era uma designação para o infantil, o que podia dar má fama à casa. Gostava mais de «tasca», porque achava mais apropriado e, de certa forma, mais digno. E com a dignidade não se podia brincar e, muito menos, menosprezá-la. Ficava «tasca», e pronto.
A tasca, propriamente dita, era constituída por um balcão e três mesas. Tinha também um reservado, formado por uma mesa e um banco corrido, destinado a ilustres, que também iam à tasca, não vá pensar-se o contrário... Dado o nome, «reservado», não falaremos mais dele, até porque nunca lá fomos. Destino de «não-ilustre», que costuma ser diferente do dos «ilustres», embora às vezes se cruzem... Não me parecia ser o que aconteceria na tasca...
O dono da tasca era uma personalidade curiosa. Nem alto, nem baixo, com peito à custa de camisolas, dado à crítica literária e à composição poética, com uma passagem breve, mas ovacionada, pelos palcos de ópera e de teatro. Peladinho também por uma partida de sueca ou dominó, histórias brejeiras e sérias, com acompanhamento de bandolim ou violino, que podia ser (quem diria?...) um Stradivarius... Era, como se vê, uma Figura, só que servia copos e era dono de uma tasca...
Todos os que frequentaram tascas conheceram um dono (ou uma dona) assim, certamente que com poucas diferenças entre eles (ou elas), a maioria das vezes só à volta das árias que interpretavam ou interpretaram: umas vezes de Puccini, outras de autores mais contemporâneos, que talvez os houvesse...
Para quem não as frequentou, ilustres ou não, pode parecer-lhes que não existem ou existiram donos (ou donas de tasca) assim... E será verdade. Como todos os estereótipos (palavra já não de tasca, mas de café), este dono (ou dona) de tasca nunca existiu, afirmar-se-á com a presunção de café e não com a humildade de tasca.
Será que não?... Tenho as minhas dúvidas...


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02 novembro 2014

Cristaleira

Tratava as memórias e as vivências como se fossem de cristal. Tinha o cuidado que se deve ter com este tipo de material, incluindo a limpeza e o manuseio, sempre feitos de forma delicada. A algumas, não todas, puxava um bocadinho o lustro, pois achava-as um tudo nada baças. Andava a pensar seriamente em abrir um museu, com preços simbólicos, e algum apoio de fundos comunitários... Até lá, continuava a pegar num paninho de feltro e a pensar no dia, distante que fosse, em que iria cortar a fita...

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05 setembro 2014

Truz-truz

Bateu à porta da memória e foi convidado a entrar. A princípio recusou, mas acabou por aceitar. Perguntaram-lhe como estava e se queria tomar um calicezinho ou uns bolinhos, acabados de fazer. Disse não aos bolos mas sim ao cálice, pois estava de dieta. Conversaram e esqueceram-se do tempo, que não amuou, apesar de tudo. Combinaram voltar a encontrar-se e comer uma bifana ou uma chouriça, umas azeitoninhas e provavelmente uma garrafinha de tinto, caso estivessem para aí virados e com sede.

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13 abril 2011

Piasca

Vi hoje, numa montra, um objecto que me fez retroceder à infância: uma piasca! Pelo menos, aquilo que eu sempre denominei como «piasca», ou seja, um pião de madeira mais pequeno do que um pião normal, com um ferrão mais fino e pontiagudo, lançado, tal e qual como no pião, com baraça, e não a significação que me era fornecida pelo dicionário: «pequeno pião que se joga entre os dedos». Desconheço se há aqui alguma confusão terminológica, mas o que a memória me dita é que aquilo que eu designo como «piasca» não é a mesma coisa que a significação do dicionário me refere, pois a esta eu associo um outro objecto, da mesma família, é certo, mas claramente diferenciado, quer no tamanho, quer também no material utilizado na sua produção, não só em madeira, mas também de plástico ou de borracha, e este sim, lançado ou atirado com os dedos, sem baraça.

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22 novembro 2009

Era uma vez... O 25 de Novembro!

O 25 de Novembro de 1975 parece que foi há muito tempo. Hoje, no Público, Paulo Moura apresenta um artigo palpitante sobre os dias frenéticos que precederam essa data, artigo que se lê com avidez e excitação: se for preciso um guião para um filme ou uma série sobre este acontecimento da nossa História contemporânea recente, os elementos estão lá, neste artigo!
É fantástico como a pena do escriba, neste caso, jornalista, pode iluminar e dar vida a factos já ocorridos, quase que se revivendo e sentindo o pulsar do fio da História. Visto a esta distância, e contando, apesar de tudo, com as zonas de sombra ainda por aclarar, cheira-se o cenário e a realidade de uma iminente guerra civil, apesar de tudo contida, e cujos efeitos seriam imprevisíveis. Eis aqui um desafio para os historiadores e os protagonistas, quaisquer que tenham sido. Também, como se disse, uma oportunidade para os autores de ficção, audiovisonada ou não. Às tantas, as contas com a História ainda não estarão todas feitas. O artigo pode ser um excelente ponto de partida. Quem se abalança a dar-lhe continuidade?

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30 outubro 2008

Engranhado

Estava um dia muito frio. Até então, a temperatura tinha estado amena, pouco propícia a surpresas como a que ocorreu nesse dia. Soprava um vento cortante, gélido, a prenunciar neve. Andar na rua era desconfortável e desagradável. Lembro-me de ter pensado: «Estou engranhado». «Engranhado»?!... Há que tempos não te ouvia o som e me recordava do teu significado! Curioso fenómeno, este, do aparecimento consciente da palavra e do significado «engranhado». Era como se tivessem estado hibernados, um e outro, à espera de uma oportunidade para aparecerem. Curioso também, era que o fim da hibernação se prendia, no seu caso, com uma situação de frio e não com uma de calor. Mas isso, convenhamos, é uma outra história...

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20 setembro 2008

Vagueiro

Curiosamente, foi numa das suas rotinas diárias que a palavra «vagueiro» lhe bateu à porta da memória, entrando sem pedir licença. Era irónico, pensava, que ela aparecesse agora e assim, passados uns bons anos, a rir-se do acaso e da circunstância... Houve tempos, recordava, em que a palavra «vagueiro» se lhe aplicava. Consoante a idade, a perspectiva ou o interlocutor, o sentido da palavra podia ter uma conotação mais ou menos negativa. Nalguns casos ou idades, aliás, o apodo até podia ser visto como «elogio» ou beneplácito, representando um símbolo de maioridade etária ou vivencial. Ser crismado como «vagueiro» era, para alguém da sua criação e geração, uma medalha que se ostentava orgulhosamente ao peito. Pelo menos, durante algum tempo. Ou seja, no tempo em que a nossa vida era uma vida de «vagueirada», ociosa, vagante e despreocupada. Que saudades, amigas e amigos «vagueiros»...

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09 outubro 2007

Escaganifobético

Ia pela rua e, de repente, aflorou-me à memória uma palavra que já não usava ou ouvia há anos: escaganifobético! Quase dei um salto, com tal lembrança. Que raio, escaganifobético! Passei o dia a pronunciá-la, como que a querer relembrar algo que estava «lá». É mesmo escaganifobético!

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26 fevereiro 2007

Heróis

Talvez o meu interesse pelos temas da II Guerra tenha tido origem nas bandas desenhadas a que tive acesso, quando era mais novo. Falo de duas em particular, Major Alvega e ENE3, publicadas na colecção «Falcão». Quem, mais ou menos da minha idade, não se deliciou com as aventuras do Major Eduardo de Cook e Alvega, o intrépido aviador luso-britânico, ou do hábil agente secreto ENE3, nos cenários da Europa ocupada? Quantas horas, dias e emoções não partilhámos com e por causa destes - e doutros - heróis? Será que ainda os há?...

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16 fevereiro 2007

Matraquilhos

As minhas memórias dos matraquilhos são mais boas do que más. Li, na imprensa, que se tinha constituído uma federação portuguesa de matraquilhos e que se iria realizar, em Famalicão, se não me engano, um open durante este fim de semana. Salve! É com notícias destas que também se rejubila! Como entretenimento, os matraquilhos são uma instituição genuinamente popular, acarinhada por novos e velhos, rurais ou urbanos, sem distinção de sexo, embora maioritariamente masculina, e com uma grande projecção na estudantada (escola secundária ou universidade que se prezem têm que ter uma mesa à disposição...). Ainda hoje, quando desafiado ou havendo ensejo, não costumo perder a oportunidade para ensaiar uns remates, fazer umas roletas ou tentar sacar umas fintas, seja a "careca", a "gancheta" ou a "cagadinha". Muitas e felizes horas passei a jogar ou a ver jogar isto! Então, nos dias de inverno ou de invernia (como o de hoje) ... era garantido, até as mãos ferverem pela entrega e pelo entusiasmo e se gritar e festejar, como nos estádios, aquele som seco e sonoro do golo na baliza dos adversários. Venha o próximo!

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15 fevereiro 2007

Morte anunciada

Tratou-se de uma triste e amarga coincidência. Horas antes, à conversa com colegas, tinha feito um pequeno rememorar de uma viagem na linha ferroviária do Tua, há anos atrás, para fazer a ligação Moncorvo-Bragança. Digo triste e amarga pois, como se veio a saber ao final da tarde desse dia, um acidente com a automotora matou três pessoas, na sequência de um desabamento de terra e da queda do veículo nas águas do Tua. É lamentável o que aconteceu, é certo, mas já nada pode devolver a vida a essas pessoas. Não tivesse acontecido o que aconteceu e, provavelmente, essa minha recordação teria um outro sabor. Assim, o que fica é este travo amargo e triste, sinal de um estado de coisas que se verifica, cada vez mais, em relação ao Interior.
Essa minha viagem durou cerca de 7 h, iniciando-se, em Moncorvo, por volta das 17 h e terminando, em Bragança, à volta da meia-noite. Já então, embora sem o desenlace desta, felizmente, era também uma «certa» imagem do Interior, do Portugal não litoral, que se evidenciava nesse roteiro e opção. A ligação rodoviária, para uma distância de mais ou menos 100 km, era de duas horas (falamos da fase pré-IPs). De comboio, que foi o que eu fiz, a ligação durou as tais 7 horas, implicando a utilização de três linhas ferroviárias: a do Sabor - já desactivada -, a do Douro e a do Tua. Havia locomotivas a vapor e a diesel, carruagens com bancos de madeira ou de napa. Começavam a soprar os ventos favoráveis à rodovia e os investimentos na ferrovia eram inexistentes, pelo menos para aquelas bandas e com os resultados que se conhecem: os de então e os de agora. À sua maneira, também eles eram um dos símbolos de uma morte cada dia mais anunciada - a do Interior.

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29 janeiro 2007

Neve

Ontem, nevou em Lisboa. Tal como há um ano atrás. Apesar de fugaz, é sempre um espectáculo admirável.
Ver cair neve é, das memórias de infância, uma das que mais persiste: nevões grandes, imensos. Na falta destes, vive-se com o que há: uns farrapitos, durante meia dúzia de minutos...

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10 janeiro 2007

Momentos

A chuva chegou de mansinho, conferindo ao céu da cidade uma tonalidade acinzentada.
É uma rapariga alta, com uma cara e um cabelo bonitos. A chuva moldou-lhe o penteado e uma nova imagem se afirmou, sedutora.

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02 dezembro 2006

Binte!

Era uma das figuras mais conhecidas na tertúlia do dominó: magro, de fato ou samarra, chapéu na cabeça. Já era velhote quando eu o conheci, mas de feitio e de postura nada envelhecidos. Partilhava connosco - que éramos mais jovens - a sua vida intensa e preenchida, e onde avultavam - não raras vezes - as suas façanhas de conquistador endiabrado. Para nós, era como se fosse um avô: com pinta, graça e muita irreverência. Para ele, talvez, seríamos uma espécie de netos ou, na linha tradicional daquelas bandas, uma rapaziada com quem gostosamente se partilhavam dias e momentos de vida, numa versão lúdica de passagem de testemunhos e de vivências. Gostava muito de jogar dominó. Não que fosse um grande jogador, mas um apaixonado pelo jogo e por tudo o que ele representava: emoção, desafio, disputa. E de se bater contra os jovens, de preferência. Contra os «mágicos», os «professores» ou os "leôncios", tudo etiquetas apostas à rapaziada mais nova que o desafiava. E era com a rapaziada mais nova, não há dúvida, que esse nosso velho companheiro mais se entretinha. A maior das vezes com derrota certa, é um facto, mas sempre inconformado até mais não - «Eu sou uma fraga dura!» - era a orgulhosa divisa que ostentava. E nós acreditávamos. Estando a jogar numa qualquer mesa, era certo e sabido que todos os olhares e atenções seriam para lá deslocados. Era um espectáculo só por si, para além de tudo o mais. Conhecedores do estilo e da exuberência deste jogador, havia muitos pequenos truques para o desestabilizar, a maioria das vezes só para o ouvir dizer, com lamento, a fatídica palavra «Passo...». Quando as coisas corriam bem, contudo, o pagode e o divertimento também estavam assegurados. Sendo o dominó um jogo de pontos, ainda me lembro quando este nosso velhote, com a pedra firmemente prensada entre o polegar e o indicador, esta era projectada - quantas vezes para a rua - de encontro às dos adversários ou parceiros, depois de um batimento mais forte na mesa e de um sonoro e entusiástico: "Binte!".

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