A pantufa como solista
Uma coisa tinha que ser reconhecida: naquele pátio, não tinham ficado parados! Ao princípio, duvidava-se que viesse a ser assim. Mas, à medida que as coisas aconteciam, uma espécie de efeito bola de neve acontecera, ainda que já não fosse bem o tempo para isso... Quando se fizer a história desse período, muita coisa surpreenderá as pessoas e, já agora, os animais, também uma parte integrante do fresco desse período, com direito a participação no elenco e na primeira fila, ao contrário das paredes, agora paulatinamente relegadas para o efeito de cenário... Antecipava-se já um remake de uma célebre frase de outrora: «Onde é que se estava no tempo da pandemia...?». Enfim, coisas para acontecer no futuro. Agora, concentremo-nos no presente.
E o presente adivinhava festa, atendendo à mensagem que tinha entrado no grupo criado numa aplicação informática em voga. Dizia assim: «Concerto, 21h00. Consulte o programa no site da Associação».
Apesar da multiplicidade de iniciativas que vinham a ocorrer nesses dias, dava para sentir o frisson que ecoara pelas casas do lugar, com os sintomas inerentes: os «ohs!», as palmas, os «fixe!» e os «porreiro, pá!» começavam a ouvir-se por todo o lado, com os cães a ladrarem, os gatos a miarem e a passarada diversa a chilrear piares como em antecipação... Mais uns retoques e com a luz apropriada, teríamos o cenário de um filme neo-realista ou pós-moderno, talvez experimental. A hipótese de uma abordagem nonsense, a roçar a palhaçada ou o delírio, não lhe desagradava de todo, mas tinha dúvidas. Logo se veria. Mas continuava a faltar qualquer coisa...
O site da associação era parco em informação sobre o evento. Para além de uma indicação sobre a necessidade de as casas abrirem as janelas e varandas, o que sobressaía era a sugestão para que se desse atenção ao que se levaria vestido: elegância, mas com sobriedade. Isto deixara-o intrigado. Dando uma vista de olhos pelo armário, havia uma peça ou outra que se encaixaria no dress code sugerido. Mais do que isso, era arriscado. E havia o problema das pantufas, cada vez mais transformados nos actuais sapatos de vela. Poderiam usar-se...? Talvez sim, ansiava. Contaria também com as luzes, que à hora do concerto estariam baixas ou apagadas, talvez substituídas pelas dos telemóveis, tal qual como nos festivais, o que atenuaria o efeito. A coisa era capaz de compor-se...
À medida que a hora de início do concerto se aproximava, a expectativa aumentava. Finalmente, chegara!
Quando as luzes das casas se apagaram, e o solista, maestro e primeiro assobiador da Orquestra Sinfónica do Assobio arrancou com os acordes da Sinfonia para Assobio, em estreia mundial, uma emoção rara perpassou pela área do pátio. Muitos, talvez a maioria, não conseguiram esconder a emoção que os tomou, com um ou outro pigarreio na voz, para disfarçar. As senhoras, com as suas estolas por cima do roupão, não se cansavam de exclamar: «Nem no Scala! Nem no Scala!». Quando chegou ao fim, a apoteose e as palmas atingiram um nível assombroso, praticamente estratosférico! De tal forma, que motivou a intervenção da polícia e da protecção civil...
E tu, avô: «Onde é que estavas no dia do concerto...?».
E o presente adivinhava festa, atendendo à mensagem que tinha entrado no grupo criado numa aplicação informática em voga. Dizia assim: «Concerto, 21h00. Consulte o programa no site da Associação».
Apesar da multiplicidade de iniciativas que vinham a ocorrer nesses dias, dava para sentir o frisson que ecoara pelas casas do lugar, com os sintomas inerentes: os «ohs!», as palmas, os «fixe!» e os «porreiro, pá!» começavam a ouvir-se por todo o lado, com os cães a ladrarem, os gatos a miarem e a passarada diversa a chilrear piares como em antecipação... Mais uns retoques e com a luz apropriada, teríamos o cenário de um filme neo-realista ou pós-moderno, talvez experimental. A hipótese de uma abordagem nonsense, a roçar a palhaçada ou o delírio, não lhe desagradava de todo, mas tinha dúvidas. Logo se veria. Mas continuava a faltar qualquer coisa...
O site da associação era parco em informação sobre o evento. Para além de uma indicação sobre a necessidade de as casas abrirem as janelas e varandas, o que sobressaía era a sugestão para que se desse atenção ao que se levaria vestido: elegância, mas com sobriedade. Isto deixara-o intrigado. Dando uma vista de olhos pelo armário, havia uma peça ou outra que se encaixaria no dress code sugerido. Mais do que isso, era arriscado. E havia o problema das pantufas, cada vez mais transformados nos actuais sapatos de vela. Poderiam usar-se...? Talvez sim, ansiava. Contaria também com as luzes, que à hora do concerto estariam baixas ou apagadas, talvez substituídas pelas dos telemóveis, tal qual como nos festivais, o que atenuaria o efeito. A coisa era capaz de compor-se...
À medida que a hora de início do concerto se aproximava, a expectativa aumentava. Finalmente, chegara!
Quando as luzes das casas se apagaram, e o solista, maestro e primeiro assobiador da Orquestra Sinfónica do Assobio arrancou com os acordes da Sinfonia para Assobio, em estreia mundial, uma emoção rara perpassou pela área do pátio. Muitos, talvez a maioria, não conseguiram esconder a emoção que os tomou, com um ou outro pigarreio na voz, para disfarçar. As senhoras, com as suas estolas por cima do roupão, não se cansavam de exclamar: «Nem no Scala! Nem no Scala!». Quando chegou ao fim, a apoteose e as palmas atingiram um nível assombroso, praticamente estratosférico! De tal forma, que motivou a intervenção da polícia e da protecção civil...
E tu, avô: «Onde é que estavas no dia do concerto...?».
Etiquetas: Historieta
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