05 maio 2008

Guicha vs. ramplona

Em ambiente urbano, já não é muito comum ou frequente ouvir palavras ou expressões de extracção ou raíz popular. Quem as conhece ou utiliza vai rareando - por serem, habitualmente, pessoas já de alguma idade -, e também por que as regras e as práticas da sociabilidade e da vivência nas grandes urbes não convidam ou contribuem para que delas se possa ter conhecimento ou um usufruto mais amplo. Haverá excepções, é certo, mas este será o panorama geral. Tudo começou com a utilização, por mim, da palavra «guicha» («guitcha», na pronúncia de Moncorvo), a propósito já não sei de quê. «Guitcha», que me lembre, quer dizer «espevitada, animada, activa», não sendo do conhecimento da pessoa com quem falava. A palavra foi usada num contexto informal e, na sequência da conversa, ouvi - quem sabe se como uma dádiva linguística em retribuição -, uma expressão alentejana a que achei um piadão: «partes ramplonas». Tenho sorte, reconheço, por ainda conhecer pessoas em que este património linguístico é manuseado com desembaraço e propriedade. Chame-se-lhe o que quiser: nostalgia, curiosidade, interesse, memória, gosto, a verdade é que sempre achei graça a estes episódios linguísticos, não tendo conta as vezes em que me surpreendem ou entusiasmam. «Partes ramplonas», estou certo, passou a constar neste rol. «Guitcha» já não precisa, por que já lá consta por direito. Desconheço se a palavra «ramplona» é de origem alentejana ou se, pelo contrário, se funda no castelhano. Suspeito que a origem será espanhola. Pelo que pude aperceber-me, a palavra é utilizada como adjectivo, sendo sinónimo de «vulgar, ordinário», possuidora de uma sonoridade fonética e uma expressividade semântica notáveis. «Guitcha» e «ramplona» são palavras que enriquecem uma língua, pelo seu colorido e pitoresco. Dizem-nos e falam-nos de algo: nós próprios, enquanto País e Povo. Há que aprender a valorizá-las. Pela minha parte, vou continuar a fazê-lo. Espero que de forma «guitcha» e não «ramplona». Oxalá.

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