08 dezembro 2018

Fazer de conta


O conselho do médico fora peremptório: fazer de conta duas vezes por dia, depois do pequeno-almoço e do lanche. Nem procurou objectar. Mesmo que o fizesse, o médico não era de modas e perguntava-lhe: «Quem é que aqui é o médico?...». Perante isto, o assunto ficava mais ou menos encerrado, pelo menos até à próxima consulta. Não adiantava. Lá teria que arranjar maneira de aviar a receita, persistindo a dúvida se seria ou não um placebo. Mas tinha algum receio. Das anteriores vezes que seguira a prescrição de fazer de conta não se tinha dado bem, antes pelo contrário. Em privado continuava a achar que o médico tinha exagerado na dose de fazer de conta depois das quatro refeições: pequeno-almoço, almoço, lanche e jantar. A família também concordava que era exagerado e não adequado à idade e à constituição. Mas esbarravam sempre no mesmo muro, esse mesmo, aquele que se erguia da pergunta anterior. Mas as coisas estavam a mudar. Só que ainda não sabiam.
Recentemente, um guru da vida farta e plena tinha-se instalado no bairro. A casa era igual às outras, com a diferença de que lhe batiam mais vezes à porta e as filas estavam sempre a perder de vista. Os maldizentes e as respectivas diziam que era um bruxo ou um curandeiro e não um guru igual aos que apareciam nas revistas e nos anúncios. Era uma diferença de opiniões que se tinha que aceitar, pois estava-se num país democrático. Como não tinha nada a perder e já estava farto de aturar a família que o incentivava a ir lá, marcou uma consulta, que ali se chamava visão.
Entrou à hora e foi encaminhado para a sala. Não havia nada parecido com um consultório ou reservado. Só a sala. Uma vez lá dentro, deu as boas-tardes ao guru, que estava sentado num banco de madeira, por causa das costas. E este perguntou-lhe logo:
_ Está disponível para a visão?
_ Bem… Não sei…
_ É natural… Não se preocupe. O que é que o traz cá?
_ Tenho que fazer de conta duas vezes por dia…
_ Receita médica, suponho?
_ Sim. Como adivinhou?
_ Tenho um dom. Sabe que eu sou guru, não sabe?
_ É o que dizem. Mas de quê?
_ Ora, de quê!... Da vida farta e plena, claro! A única! A verdadeira!
_ Mas só há essa?
Aqui o guru ficou abananado, caindo do banco. Começou aos berros e aos urros, parecia que lhe estava a dar uma coisa má, e o paciente começou a ficar preocupado e a pensar se devia chamar a emergência médica. Ia ver. Mas o guru lá se foi acalmando e voltou a sentar-se no banco. Olhou para o paciente e disse:
_ Tive a visão e já não sou guru. Agora és tu.
Depois levantou-se, pôs o chapéu e foi-se embora.

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