03 abril 2016

Generalizações


«Todas as generalizações são perigosas, ainda que vacinadas». Esta afirmação, que lera num almanaque, deixara-o intrigado e sobressaltado, logo agora que tinha adquirido uma generalização num produtor de confiança (aparentemente), com pedigree certificado e boletim de vacinas em ordem, pelo menos era o que pensava até ter lido a dita frase.
É certo que os tempos andavam difíceis para as generalizações, pese embora a sua utilidade (reconhecida por toda a gente, aliás). Na verdade, quem podia pôr em causa que uma boa (ou má) generalização não dava jeito numa conversa ou cena de pancada no restaurante ou no café da esquina, na sala de recepção de um consultório ou de um centro de saúde, num transporte público ou numa praia, numa recepção ou numa vernissage? Mesmo para as pessoas cépticas (que as há sempre, seja lá onde for e a propósito de quê), isso trazia vantagens, mais não fosse porque lhes permitia pôr em prática essa sua característica, a de ser «céptica».
Julgando-se com bom fundo, não queria acreditar que isso também se aplicasse ao mundo da ciência, sobretudo no domínio das induções, que julgava ser um parente próximo (embora mais rico) das generalizações comuns, mas provavelmente estaria enganado, conforme lhe começavam a ladrar os cépticos, uma raça danada sempre disposta a morder os calcanhares a tudo o que mexesse… E que teriam razão, garantiam-lhe os próprios criadores de induções, pois só assim se garantiria o avançar e o validar do conhecimento científico. Iria admitir que sim, por educação e respeito para com esta rapaziada dos laboratórios, assumindo o sábio princípio de que, na dúvida, se devia favorecer o réu, o que eles também lhe tinham dito, mas em latim (língua que não dominava), mais ou menos assim: In dubio pro reo.
Mas estava na hora de passear a generalização, diziam-lhe o relógio e os latidos que começou a ouvir na casota do quintal, tendo que se deixar de filosofias e pôr-se a fazer coisas. Por via das dúvidas, no entanto, iria reforçar a dose da vacina e comprar na farmácia mais uns anti-inflamatórios, «não fosse o diabo tecê-las». E isto não era uma generalização.

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