Lenda(s)
O manuscrito viera ter-lhe às mãos quase por sorte, resgatado a um destino banal em direcção ao caixote do lixo. Não lhe ligou muito, a princípio, porque tralha daquela era o que abundava lá por casa (qualquer que fosse a divisão), daí a necessidade de se fazer, ciclicamente, uma actualização do espaço disponível, à laia de crivo crítico ou, o que era mais frequente, de arranjar espaço para nova carrada de tralha escrita ou ditada, que também havia.
Sobre o manuscrito em causa, em concreto sobre a sua existência e sobre quem era o autor, a história já tinha alguns bons anos, ciclicamente recuperada nos círculos onde se movimentava, sobretudo após cenas de copos e reflexões mais ou menos (im)pensadas sobre o sentido da vida. Seria (supostamente) sobre a vida e as histórias de um repórter sui generis, chamemos-lhe assim, que trabalhava à peça para um conjunto de jornais locais, às vezes regionais, sob pseudónimo, e nas horas livres da sua actividade rotineira, pormenor que fazia questão de realçar a quem pensava adquirir os seus serviços, nunca se comprometendo com a regularidade ou a periodicidade da publicação. Como tudo se passou há algum tempo (supostamente), e as coisas se processavam num registo que mais parecia o de uma lenda do que uma coisa que aconteceu, registada e comprovada por testemunhas, as evidências e ou testemunhos do que quer que fosse relacionado com o repórter e as suas peças eram fugazes ou exuberantes, dependendo da qualidade ou do rigor de quem as dizia ou reproduzia, habitualmente depois de as ter ouvido algures, se bem que também houvesse quem garantia que as teria lido, mesmo que já não se lembrasse onde e editado por quem. Nos seus círculos de proximidade, por isso, tudo o que se referia ao assunto era designado por «A Lenda», tradução portuguesa de The Legend, brincadeira que alguém do círculo (já não se lembrava quem) mais dado às referências anglo-saxónicas, sobretudo após a ingestão de uns whiskys (em português «uísques»), resolvera introduzir neste universo de cumplicidades, mais não fosse para dar um toque de classe e de mundanidade, aligeirando a atmosfera destes encontros e dando-lhes a importância que mereciam, ou seja, pouca ou nenhuma.
Mas sabia-se muito pouco da personagem e do seu manuscrito, se é que ele existia ou se alguma vez fora escrito. Apesar disso, havia alguns pormenores concordantes, sobretudo em relação ao pseudónimo utilizado, Prensa Libre, que alguns apontavam como uma referência simbólica, talvez um pouco subversiva, e outros referiam como uma alusão à proveniência geográfica do autor, possivelmente da América Latina ou, hipótese talvez mais provável, da Galiza. Já sobre o título do (suposto) manuscrito as opiniões dividiam-se, Histórias Mirabolantes - um testemunho, segundo uns, Estava Lá, Mas por Acaso, garantiam outros. Coincidentes eram também as conclusões sobre o tipo e a natureza das histórias, que eram «do arco-da-velha», expressão informal e popular que melhor as caracterizaria, perfeitamente adequadas ao seu público-alvo, com extensão variável, às vezes apontamentos ou vislumbres, outras mais longas, com descrições desenvolvidas e pormenorizadas sobre os locais, os momentos e os protagonistas, alguns deles tão incríveis que dificilmente se acreditará que tenham existido, mas que foram dados à vida e à fama, mesmo que localizada, e se transformaram em património imaterial.
Uma lenda pode ter vários significados. Daí provém a sua riqueza, talvez, ou o seu fascínio, seguramente. Às vezes tem-se sorte (ou será lenda?) e o destino bafeja-nos. Terá sido este o caso, vistas as coisas à distância que o tempo e a experiência possibilitam, eles também partes importantes das lendas, conhecidas ou a conhecer, sem esquecer a maneira como se constroem (que são a maioria, note-se).
Uma lenda pode sempre contar-se como uma história, com o princípio que todos conhecem ou já ouviram: «Era uma vez...». A fonte pode ser diversa, mas aqui vamos pôr os «pontos nos is» e atribuir-lhe a nascença num manuscrito (o que é verdade, mas nunca fiando...). Para o bem ou para o mal, escolha-se o lado que se quiser, o relato que sustenta a lenda não aponta para protagonistas ou factos que possam ser comprovados seguramente, mas que é possível tenham ocorrido da forma que se descrevem, incluindo a sua existência física, num tempo ou num espaço mais ou menos determinados.
E o manuscrito (salvo do caixote) intitulava-se, precisamente, Estava Lá, Mas por Acaso.
Sobre o manuscrito em causa, em concreto sobre a sua existência e sobre quem era o autor, a história já tinha alguns bons anos, ciclicamente recuperada nos círculos onde se movimentava, sobretudo após cenas de copos e reflexões mais ou menos (im)pensadas sobre o sentido da vida. Seria (supostamente) sobre a vida e as histórias de um repórter sui generis, chamemos-lhe assim, que trabalhava à peça para um conjunto de jornais locais, às vezes regionais, sob pseudónimo, e nas horas livres da sua actividade rotineira, pormenor que fazia questão de realçar a quem pensava adquirir os seus serviços, nunca se comprometendo com a regularidade ou a periodicidade da publicação. Como tudo se passou há algum tempo (supostamente), e as coisas se processavam num registo que mais parecia o de uma lenda do que uma coisa que aconteceu, registada e comprovada por testemunhas, as evidências e ou testemunhos do que quer que fosse relacionado com o repórter e as suas peças eram fugazes ou exuberantes, dependendo da qualidade ou do rigor de quem as dizia ou reproduzia, habitualmente depois de as ter ouvido algures, se bem que também houvesse quem garantia que as teria lido, mesmo que já não se lembrasse onde e editado por quem. Nos seus círculos de proximidade, por isso, tudo o que se referia ao assunto era designado por «A Lenda», tradução portuguesa de The Legend, brincadeira que alguém do círculo (já não se lembrava quem) mais dado às referências anglo-saxónicas, sobretudo após a ingestão de uns whiskys (em português «uísques»), resolvera introduzir neste universo de cumplicidades, mais não fosse para dar um toque de classe e de mundanidade, aligeirando a atmosfera destes encontros e dando-lhes a importância que mereciam, ou seja, pouca ou nenhuma.
Mas sabia-se muito pouco da personagem e do seu manuscrito, se é que ele existia ou se alguma vez fora escrito. Apesar disso, havia alguns pormenores concordantes, sobretudo em relação ao pseudónimo utilizado, Prensa Libre, que alguns apontavam como uma referência simbólica, talvez um pouco subversiva, e outros referiam como uma alusão à proveniência geográfica do autor, possivelmente da América Latina ou, hipótese talvez mais provável, da Galiza. Já sobre o título do (suposto) manuscrito as opiniões dividiam-se, Histórias Mirabolantes - um testemunho, segundo uns, Estava Lá, Mas por Acaso, garantiam outros. Coincidentes eram também as conclusões sobre o tipo e a natureza das histórias, que eram «do arco-da-velha», expressão informal e popular que melhor as caracterizaria, perfeitamente adequadas ao seu público-alvo, com extensão variável, às vezes apontamentos ou vislumbres, outras mais longas, com descrições desenvolvidas e pormenorizadas sobre os locais, os momentos e os protagonistas, alguns deles tão incríveis que dificilmente se acreditará que tenham existido, mas que foram dados à vida e à fama, mesmo que localizada, e se transformaram em património imaterial.
Uma lenda pode ter vários significados. Daí provém a sua riqueza, talvez, ou o seu fascínio, seguramente. Às vezes tem-se sorte (ou será lenda?) e o destino bafeja-nos. Terá sido este o caso, vistas as coisas à distância que o tempo e a experiência possibilitam, eles também partes importantes das lendas, conhecidas ou a conhecer, sem esquecer a maneira como se constroem (que são a maioria, note-se).
Uma lenda pode sempre contar-se como uma história, com o princípio que todos conhecem ou já ouviram: «Era uma vez...». A fonte pode ser diversa, mas aqui vamos pôr os «pontos nos is» e atribuir-lhe a nascença num manuscrito (o que é verdade, mas nunca fiando...). Para o bem ou para o mal, escolha-se o lado que se quiser, o relato que sustenta a lenda não aponta para protagonistas ou factos que possam ser comprovados seguramente, mas que é possível tenham ocorrido da forma que se descrevem, incluindo a sua existência física, num tempo ou num espaço mais ou menos determinados.
E o manuscrito (salvo do caixote) intitulava-se, precisamente, Estava Lá, Mas por Acaso.
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