25 fevereiro 2008

Cassilda

Cassilda era vidente. Era capaz de adivinhar, sem esforço que se notasse, as maleitas de amor ou do infortúnio, os achaques do frio ou do calor, os desencontros ou os desvios do destino. Cassilda era paciente com todos, excepto com uma sorte de clientes: não aturava criaturas carpideiras e desancava-as com as cartas, os búzios, as pedras, o que fosse. No mais, Cassilda era uma profissional. Consulta pedida, consulta feita. E paga, pois era justo ser recompensada pelo trabalho de intermediação com as forças esotéricas e misteriosas. Mas, por uma vez, Cassilda foi traída por essas mesmas forças, das quais era íntima, e está doente. De baixa. Não atende os pacientes. A campainha da porta toca, toca, mas nada. Cassilda ouve, mas não se mexe. Cassilda sofre e pena a sua sorte, sozinha e triste. Cassilda, a profissional vidente, equivocou-se e foi atingida pela desdita. Coitada! Não se precaveu, como era mister do seu ofício. Cassilda, a profissional vidente, partiu uma perna. Não conseguiu previr o futuro e... caiu num buraco, à porta de casa. Cruzes, canhoto, Cassilda!

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