13 janeiro 2008

Doenças

«Levei anestesia para duas horas, a operação durou seis! Talvez por isso, garantiu-me a minha mulher, os médicos até saíram da operação a suar.» Ora aqui está, com o tradicional «rigor» lusitano, um dos seus temas de conversa favoritos: a saúde, melhor dizendo, a real ou suposta falta dela.
Sempre me surpreendeu o gosto dos portugueses pelas conversas sobre a sua saúde ou falta dela, sobretudo esta. Qualquer cenário serve: as compras, os transportes públicos, os cafés, o convívio (menos previsíveis) e os consultórios, os centros de saúde e os hospitais, por maioria de razão. Também é um tema transversal - tanto transparece nas camadas finas, cultas e educadas da sociedade como nas grossas, boçais e analfabetas. Também aqui, a origem e o pedegree social mostram a sua face: a cada estrato, sua doença, tratamento ou calvário. Deixemos isto, por enquanto.
De tanto ouvir falar deste tema, quase me tornei entendido a detectar os sintomas: uma dorzita aqui, um inchaço acolá, umas análises, a mudança de médico, de centro, de hospital, uns medicamentos ineficazes e caríssimos, a moda do «natural», dos chás e das infusões, uma, duas, três ou mais operações, depois de uma, duas, três tonturas, enjôos, más-disposições, fracturas, calores, frios, falta de sono e de força, de apetites, de... falta de saúde!
Mas o que verdadeiramente me surpreendia era a divulgação, melhor diria, a «ostentação», do seu estado (péssimo) de saúde: ele era o número de análises, de medicamentos, de médicos, de tratamentos, de operações, de sofrimentos, de..., num verdadeiro ranking de doenças e de inconvenientes da falta de saúde:
«- Estou cheio de dores. - Dores!? Há cinco dias que não durmo!».
« - Fiz duas operações ao braço! - Duas operações, vizinha!? E os meus, que não sei já qual é o osso que não foi arranjado. E as pernas, vizinha, as que eu não vou (ainda) fazer?»
« - Não sei que tenho. Já fui a vários médicos e eles não me encontram nada. Um até me disse que não me preocupasse, que me distraísse e não pensasse nisso. Distraísse?! Como, se eu não estou bem?!»
« - Compreendo-o(a) muito bem. Comigo é o mesmo, pelo menos desde há 10 anos. Tenho corrido os médicos todos, a falar-lhes do meu mal. Bom era o Dr. Cerqueira, mas já está reformado. Os médicos e a medicina de agora não prestam. A gente queixa-se, mas não descobrem nada. Por isso é que eu deixei de lá ir, sobretudo depois de ter descoberto um dos ossos e das agulhas, que é muito bom - até o Dr. Alípio, que é neto de médico lá anda. E com melhoras, estou-lhe a dizer! O homem estava tolhido de todo e agora já se mexe! Já experimentou os chás? Olhe que são muito bons. O da vesícula, então, não lhe digo nada! Já nem vou precisar de a tirar...».
É por isto que gosto de um «número» dos Gato Fedorento, ainda do tempo da SIC Radical, em que eles satirizavam esta particularidade de todos nós, portugueses, de falarmos sobre a nossa (má) saúde, idealizando uma espécie de concurso, à laia de reality show, sobre o maior número de doenças e maleitas protagonizadas por duas «velhotas». Quem me dera revê-lo, sobretudo agora, que estou aqui com uma dorzita, uma pontada, e tentado a tomar um «medicamento» que me foi receitado pela minha vizinha, depois de ter tido o mesmo problema ou outro parecido...

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