À procura da paisagem interior - amostra 8
Estranhava que a PI não desse notícias há algum tempo. Não que fosse preocupante, longe disso, mas apenas um sinal de que as coisas podiam estar a correr mais ou menos... Se houvesse problemas ou alguma coisa estivesse desconforme, o toque e as mensagens no telemóvel cairiam como pingas de chuva em dia dela... Mas devia estar quieto ou calado, está visto, pois após ter escrito as frases anteriores, com alguma satisfação, note-se, nem de propósito uma mensagem «piana» acabara de entrar no telemóvel, com um texto surpreendente e carregada de emojis alusivos ao estatuto e à euforia, que era perceptível: «Tenho cá a realeza!!! Tenho cá a realeza!!! Queres conhecê-la...?».
Nunca me tendo apercebido de que a PI tinha uma costela nobre, julgava que era mais para a república, fiquei intrigado com essa visita, mas também não tinha que ficar admirado, pois desconhecia todos os laços e ramos familiares que a ligavam, uns mais abonatórios do que outros, mas sempre família... Lá teria que ir.
Como não tinha indumentária apropriada, resolvi pedir emprestada uma casaca a um vizinho, antigo cantor de ópera, um tudo ou nada mais largo do que eu, uns vinte quilos, mais ou menos, fardeta que resolvia o problema da dignidade com que me ia apresentar a «Sua Alteza», mas que colocava alguns problemas sobre o cair no corpo, apenas com a vantagem de que servia simultaneamente de capa e fato completo, embora um tudo nada largo, quase a dar duas voltas ao tronco... E pelo caminho ia-me treinando a fazer vénias a torto e a direito, assim o exigia o protocolo...
Estava agora à porta, procurando ajeitar a indumentária, quando a PI me abre a porta e exclama: «How do you do, sir?», fazendo gala de uma pronúncia que eu ainda não lhe tinha conhecido, aparentemente longe, muito longe dos seus amores e perdições pela cultura, «la vie e la langue française, oh!, la-la!»... E com um canito ao peito, daqueles de raças difíceis de pronunciar, mas com nome e pedigree de arregalar o olho, Sua Excelência «Lady Godiva»! E pediu-me que fizesse uma vénia...
A seu lado, Marmela, cadela da PI, temporariamente relegada para o seu estatuto e condição vilãs, emitiu um rosnar ao ver-nos naqueles preparos... Compreendia-se: era republicana.
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