09 janeiro 2021

Custa pouco, evita muito

Podia ser mania, projecto, aspiração, mandamento, o que fosse, mas cumpria religiosamente o desígnio: dar bons-dias, boas-tardes, boas-noites com quem se cruzasse. Como nesse dia.

Deu um, dois, três bons-dias. Ninguém respondeu. Ficou furioso. Não por si, mas pelo dia, que estava mesmo bonito. Que desconsideração… E logo três vezes! Iam ver como era.

Tentou uma quarta vez. Dirigiu-se à pessoa com que então se cruzou e disse «Bons-dias!». Esta também não responde aos bons-dias, mas em contrapartida entrega logo a carteira e pede que não lhe faça mal e se podia ficar com os documentos. Que levasse o dinheiro e os cartões, mas a identificação e o passe não.

Ficou sentido, mais a mais porque era uma pessoa de bem, lamentando-se pela falta de urbanidade no trato e por as pessoas estarem cada vez mais obtusas, considerando um singelo cumprimento como uma tentativa de assalto... Nem pensar uma coisa dessas!, tranquilizou a pessoa, até porque era adepto da troca comercial livre e fraterna, sem uso de dinheiro, muito menos cartões!... Agora o que não podia perdoar, lamentava, era que a pessoa que abordara com um simpático bom-dia não lhe tivesse respondido, nem que fosse com um deseducado «só se for para si»... Até lá, não arredava pé. E avançou com um boa-tarde, que entretanto se justificava, dadas as horas.


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