19 setembro 2020

Por boas razões, felizmente...

Chegado a casa, estranhou que a caneta das escritas não lhe tivesse saltado para a orelha, como era costume e ritual diário. Talvez estivesse indisposta com qualquer coisa, pensou, ou andasse preocupada com alguma ficção mais elaborada e complexa, daquelas com que lidava na casa anterior, antes de ir para o esferografil comunitário, onde a adoptara. Essa experiência passada continuava presente e viva na memória, também por boas razões, note-se, pois a casa anterior era de um intelectual de renome e muito criativo, embora um pouco maluco e dado à melancolia, situação que motivou a intervenção dos serviços sociais e a recolha da caneta para adopção, quando se constatou que o intelectual tinha já perdido a maioria dos parafusos de origem e começava a dar sinais de que não estava em condições de assegurar uma vida digna e confortável à caneta, agora que começava a ficar mais velha, retirando-a de cenários ficcionais cada vez mais estrambólicos, para não dizer outra coisa, tendo a caneta compreendido e também achado que era preferível ser dada para adopção, na expectativa de que aparecesse alguém que a compreendesse, estimasse e incentivasse a passar os próximos tempos de uma forma singela e sossegada, talvez num cenário de prosas ou composições poéticas mais dadas ao recolhimento e à fruição das coisas simples, como o plantar das couves, o ir às compras à mercearia, fazer umas migas de bacalhau com tomate ou extasiar-se com um nascer ou pôr-do-sol, talvez com direito a um haiku, quem sabe?..., ou uma tirada daquelas que dá gosto mandar num piropo às amigas ou como assinatura num postal de boas-festas ou de cartão de felicidades para a reforma dos colegas... Enfim, devaneios que uma mente simples procurava dar vazão... mas que se mostrava preocupada, agora, com a ausência de reacção da caneta das escritas. O que se teria passado...? Uma elucubração que caíra mal...? Um sistema conceptual indigesto e inadequado à dieta a que se acomodara...? Uma análise mais aprofundada que fizera acordar memórias de uma vida passada...? Intrigante e desesperante, sem dúvida, mas felizmente não verificável nem aplicável, conforme lhe confidenciou a vizinha, quando lhe anunciou que a caneta não tinha nada de mais, só que estava grávida!!!... E o pai era o lápis.

Etiquetas: