A hora do crime
A hora do crime fora marcada com antecedência. Agora que pensava nisso, concluía que devia ser essa a razão porque a requisitavam. Não era fácil a vida, neste mundo do crime. Mais a mais, sendo mulher, a concorrência era mais forte, não por um qualquer complexo sexista, mas devido ao número das profissionais em actividade, fruto de um longo e árduo trabalho reivindicativo, é certo, mas também de persuasão aturada na arte da sedução, aplicando o conhecido princípio de que «ou há moralidade ou comem todos». Mas ainda subsistiam algumas bolsas de conflito, como o pagamento de horas extraordinárias e a conciliação do horário de trabalho com o apoio à família, matéria sempre sensível, mais a mais quando se faziam esforços para o aumento da natalidade. Fosse como fosse, chegara onde chegara por mérito e esforço próprios, pese embora a importância da formação académica e curricular prévias, que foram devidamente tidas em conta nos processos de recrutamento a que se candidatara. Mas chegava de divagações e era chegado o momento de ultimar os preparativos, pois a hora do crime aproximava-se. Olhou-se ao espelho e pôs um bocadinho mais de batom, ajustando a mira ligeiramente. Os segundos passavam, tensos. Mas, na hora aprazada (marcada com antecedência, aproveitando uma folga na agenda), nada aconteceu. Furiosa, telefonou à vítima. Esta mostrou-se compreensiva e pediu muitas desculpas, mas a explicação era simples: esquecera-se.
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