04 janeiro 2015

A dúvida

A dúvida entrara, vá lá a saber-se por onde... Era estranho, pois recentemente tinha instalado nas portas e nas janelas um sistema de segurança especificamente contra dúvidas... A ser assim, tão pouco eficaz, teria que se queixar à empresa de segurança sobre o sistema e ver o que é que se poderia fazer, mas da indemnização não se safavam... Até lá, e uma vez que a dúvida entrara e estava ali ao pé, não teve outro remédio do que fazer de anfitrião consciencioso, pois a etiqueta imperava e era um pergaminho da sua família, mesmo em relação às dúvidas. Apesar de tudo, esta dúvida não era tão perigosa como uma sua prima, a dúvida metódica, que era uma chata. Esta, pelo que lhe parecia, era mais terra a terra, embora também com o seu quê, pois o sangue de dúvida corria-lhe nas veias e, quanto a isso, nada a fazer... Como quem não quer a coisa, abordou-a acerca do problema do cogito, que era um problema que afligia muita gente e para o qual não se conseguia encontrar remédio e, muito menos, qualquer método. Sossegou-o, por via das dúvidas, e perguntou se não lhe arranjava um whisky, só com água, pois fazia bem à saúde. Alertado e ciente dos benefícios, bebeu também dois, mas com gelo. Reflectiram sobre esta diferença de perspectivas sobre o acompanhamento do whisky, mas não chegaram a consenso, nem era isso que pretendiam, ficando boquiabertos, no entanto, quando olharam para a garrafa e verificaram que, em vez de whisky, tinham estado a beber carrascão. E disso, não havia dúvidas.

Etiquetas: