17 maio 2008

Pintou!

Era curiosa, a relação dele com os jogos do tipo lotaria, totoloto ou euromilhões. Jogava com a certeza de que não lhe sairia nada, para além do preço da aposta. Tratava-se de um paradoxo, reconhecia, mas fundado nas muitas e muitas vezes em que o tinha tentado, algumas delas com a veleidade de obter um prémio, pequeno que fosse. Acabara por se conformar. Era, se quisermos, uma relação de resignado: sem nenhuma esperança, mas também sem grande frustração.
Já não escolhia os números preferidos, as combinações infalíveis ou as conjugações astrais. Dirigia-se à casa de apostas e entregava-se nas mãos da máquina, que escolhia, por si, a combinação aleatória. Isto bastava-lhe e estava de acordo com a sua (assumida) resignação: se tivesse que «pintar», a sorte pintava; se não «pintasse», não pintava. E nunca «pintava». Até ao dia em que a sorte «pintou».
Exultou, cantou e bradou a plenos pulmões: estou rico! Acabara de ganhar 34, 40 €!

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