17 abril 2016

Ao desafio


O repto, sob a forma de desafio, foi lançado com pompa e circunstância. Havia quem não concordasse e preferisse os foguetes em vez da pompa e da circunstância, que eram mais caras e não faziam as lágrimas do fogo preso, mas tinham que se adaptar ao ar dos tempos, tendencialmente mais leve ou mais pesado consoante o boletim meteorológico consultado… Ainda havia coisas por esclarecer, no entanto.
Uma delas, que era importante, prendia-se com a delimitação do âmbito: estávamos a falar de um desafio, de um repto, de um duelo, de uma prosápia ou de uma «zabumba» (obrigado, dicionário on-line)? Como no meio é que está a virtude, mesmo nos desafios e equivalentes, tratava-se de um duelo, e aqui a coisa mudava logo de figura.
Em primeiro lugar, sobre a escolha das armas: branca, de fogo ou com a mão nua? A escolha podia parecer óbvia para um amador, mas não para ele, que era um profissional. Seria a fisga, para a qual estava credenciado e com as licenças em ordem, uma mistura das três hipóteses, coisa que lhe parecia acertada e de acordo com os regulamentos, parecia-lhe, no momento em que começara a exercitar os elásticos e logo deitara abaixo uma fiada de latas colocadas em cima de um muro. Se aceitassem, por aqui estava safo.
Quanto aos padrinhos havia novidades, estabelecidas pelos regulamentos, e não havia volta a dar: ou a paridade ficava assegurada ou não havia duelo para ninguém! No seu caso, já tinha decidido convidar uma madrinha, que também tinha desempenhado este papel noutras guerras, decerto que não se importaria. Só teria que fazer-lhe o convite numa hora apropriada, depois da missa. Mas estava confiante.
Outra novidade, também, era a declaração de responsabilidade por distúrbios ou transtornos na via pública, previsíveis dada a natureza do evento, que poderiam dar origem a desenvolvimentos que poderiam fugir ao controlo, o que não se desejava. Havendo concordância das partes desavindas, o problema estava resolvido, tendo sido feita uma declaração conjunta, reconhecida no notário, de que as responsabilidades eram apenas dos envolvidos.
Quanto à data, subsistem as discordâncias. Um dos contendores quer que a coisa se faça logo que possível e o outro logo que lhe dê jeito. Continua-se num impasse e receia-se que dure. Uma das madrinhas, pois ambos as escolheram, sugeriu entretanto uma data: seria lá para as calendas…

Etiquetas: